VejaRio: Pandemia: menos Viagra, mais ansiolíticos

Consumo de medicamentos apontou mudança de prioridades do brasileiro

Aumento na venda de ansiolíticos indica que o brasileiro está tomando mais remédios e sem supervisão de um professional capacitado. Envato Elements/Reprodução

O laboratório farmacêutico Pfizer anunciou que o lucro líquido da empresa caiu 12% no primeiro trimestre de 2020 em comparação ao mesmo período de 2019. Dentre as justificativas para a queda nas vendas está a redução da prescrições de medicamentos, dentre eles o best-seller Viagra.

Estudo feito na China com 459 indivíduos e publicado no The Journal of Sexual Medicine, concluiu que um em cada quatro participantes reportaram diminuição do desejo sexual desde o surgimento do coronavírus. Na outra ponta, os ansiolíticos nunca foram tão procurados. A conclusão é que a pandemia nos forçou a priorizar as necessidades em detrimento dos desejos.

Levantamento feito pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) concluiu que houve um crescimento de quase 14% nas vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor, usados nos casos de transtornos afetivos, como depressão, distimia (neurose depressiva) e transtorno afetivo bipolar entre janeiro e julho desse ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Para se ter uma ideia em números absolutos, o total de medicamentos vendidos pulou de 56,3 milhões, em 2019, para 64,1 milhões, em 2020.

Outro estudo, da UERJ, que ouviu 1460 pessoas em 23 estados, confirma que os casos de depressão aumentaram 90%, os de estresse agudo saltaram para 40% e as crises de ansiedade cresceram 71% durante a pandemia. O resultado é o alarmante crescimento da automedicação de ansiolíticos. Ou seja: o brasileiro está tomando mais remédios e sem supervisão de um professional capacitado.

Os dados de comercialização de Rivotril (clonazepam) comprovam: um aumento de 22%, saltando de 4,6 milhões no bimestre de março e abril de 2019 para 5,6 milhões de caixas nos mesmos meses de 2020. Esse crescimento é constante nos últimos anos. Segundo dados da Anvisa, em 2018 os brasileiros compraram 56,6 milhões de caixas de medicamento para ansiedade e para dormir. Foram cerca de 6.471 caixas vendidas por hora, ou seja, aproximadamente 1,4 bilhão de comprimidos em um ano.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o Brasil é o país mais ansioso e estressado da América Latina. Nos últimos dez anos o número de pessoas com depressão aumentou 18,4%, isso corresponde a 322 milhões de indivíduos, ou 4,4% da população mundial. No Brasil, 5,8% dos habitantes – a maior taxa do continente – sofrem com o problema. Em relação à ansiedade, o Brasil também lidera, com 9,3% da população. Esse problema engloba efeitos como fobia, transtorno obsessivo-compulsivo, estresse pós-traumático e ataque de pânico.

Portanto, a diminuição da constância sexual durante a pandemia é absolutamente compreensível. O sexo começa na cabeça e diante das muitas preocupações que rondaram os brasileiros nos últimos meses, o sexo perdeu espaço temporariamente. A maioria das pessoas está exausta, ansiosa, quando não deprimida.

O importante é, na medida do possível, retomar a normalidade da vida com segurança: praticar exercícios, ter uma alimentação saudável e um sono de qualidade reduzem o estresse, colaboram no aumento do apetite sexual e diminuem a necessidade do consumo de medicamentos ansiolíticos. Saúde é prevenção!

Gilberto Ururahy é médico há 40 anos, com longa atuação em Medicina Preventiva. É diretor da MedRio Check-up, líder brasileira em check-up médico. É detentor da Medalha da Academia Nacional de Medicina da França e autor de três livros: “Como se tornar um bom estressado” (Editora Salamandra), “O cérebro emocional” (Editora Rocco) e “Emoções e saúde” (Editora Rocco).

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