Especialista destacou a importância do controle de peso, alimentação saudável e distância do cigarro

Roberto de Almeida Gil: especialista apontou o perigo dos cigarros eletrônicos para a saúde dos jovens — Divulgação/Reprodução
Dando continuidade à série “Encontro com a Prevenção”, que realizamos mensalmente na Med-Rio, recebemos na última edição, realizada semana passada, o doutor Roberto de Almeida Gil, médico oncologista clínico, membro do American Society of Clinical Oncology (ASCO), membro titular da European Society of Clinical Oncology (ESMO) e diretor-geral do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Gil abordou o tema “Câncer: um olhar atual e o aumento da incidência em jovens”.
O câncer ter se consolidado como um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo. Segundo estimativas mais recentes do INCA, o país deve registrar cerca de 781 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028, o que reafirma o crescimento da incidência e o impacto dessa enfermidade na vida das pessoas e no sistema de saúde público brasileiro.
A boa notícia é que mais de um terço de todos os casos de câncer no mundo são previsíveis. De acordo com a análise da Organização Mundial da Saúde (OMS), os cânceres de pulmão, estômago, cólon do útero representam quase metade desses casos. Isso significa que milhões de óbitos por câncer todos os anos que poderiam ser reduzidos a partir de um estilo de vida saudável, exames médicos preventivos, redução de riscos ocupacionais e combate a poluentes ambientais.
Segundo a OMS, houve quase 19 milhões de novos casos de câncer em 2022. Aproximadamente 38% deles estavam relacionados a 30 fatores de risco modificáveis, isto é, estilo de vida pouco saudável. Entre eles estão o tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal elevado, atividade física insuficiente, alimentação inadequada, poluição do ar, radiação ultravioleta, agentes infecciosos e mais de uma dezena de exposições ocupacionais.
O avanço do câncer no Brasil em população mais jovem é um alerta a necessidade de ações contínuas integradas que priorizem não apenas o tratamento, mas sobretudo a prevenção e o diagnóstico precoce. Estratégias comprovadamente eficazes para salvar vidas e reduzir o impacto dessa doença na sociedade brasileira.
O especialista lembrou do aumento dos casos de câncer em 83% e da mortalidade pela doença em 98,5%. “A perspectiva até 2050 não é boa. A gente precisa modificar essas previsões”, disse. “Impressionam a incidência de câncer de mama, câncer de próstata e o aumento do câncer de cólon. O câncer de pâncreas, por exemplo, já é o quinto em incidência no Sul do país, em mulheres. Isso está trazendo atenção para um câncer de alta letalidade. O câncer de estômago tem uma incidência grande nas mulheres da região Norte. Dentre os homens, é o segundo. Isso mostra que não dá para olhar o Brasil como um todo”, destacou ele, sobre as especificidades do país.
De acordo com ele, o câncer vai se transformar na principal causa de mortalidade no Brasil. “Temos um aumento da mortalidade por câncer nos homens de 61% e nas mulheres de 76%. E é uma curva ascendente. Diferente das doenças cardiovasculares, diferente das doenças pulmonares, o câncer está ascendendo, não está diminuindo a mortalidade. A gente acredita que isso já acontece em muitas cidades brasileiras e vai ser cada vez mais”, avalia.
Ele destaca que a partir dos 50 anos o câncer ainda é muito mais prevalente. “A pessoa acumula muito mais tempo a exposição a fatores de risco, mais mutações”, explica. Gil destaca que hoje se sabe que a genética não o fator preponderante para a ocorrência da doença. “Os fatores epigenéticos também são muito importantes, são os outros determinantes para que se tenha o fenótipo da doença. O genótipo pode facilitar, mas o indivíduo tem que estar conferindo outras coisas também para que tenha uma expressão fenotípica daquilo”, concluiu.
Gil chama atenção para a alta mortalidade câncer de cólon uterino porque a infecção pelo HPV começa aos 9 anos. “Então esses 20 anos vão pesar e vão pegar algumas pessoas muito precocemente. O mesmo ocorre com o câncer de mama a partir dos 30 anos”, disse. Já dentre os homens, o especialista destaca o tumor de testículo e o câncer de próstata.
Os jovens tem se exposto cada vez mais precocemente aos fatores de risco. “É muito triste ver rankings do câncer de pulmão pegando gente jovem. Um estudo muito interessante que saiu agora em Harvard mostrou que no mundo, principalmente nos países de alta renda, há um aumento da incidência em jovens do câncer colorretal, do câncer de útero, do câncer de pâncreas. E preocupa muita gente também a incidência do câncer de próstata, que era um câncer das pessoas mais velhas, do câncer de rim. Certamente isso está ligado a fatores comportamentais, modificação de hábitos de vida que estão levando a exposição precoce de fatores de risco que estão levando ao aparecimento mais cedo desses cânceres”, destacou.
De acordo com Gil, cada vez há maior entendimento sobre a importância da prevenção em casos de câncer. “A gente tem como prevenir câncer e o impacto é muito grande, muito maior do que muitos tratamentos. O câncer tem uma linha de sequência. Ele não é uma doença aguda que você está bem num dia, ele aparece no outro. Ele tem uma curva de trajetória. E hoje a gente sabe que a gente tem a prevenção, a gente tem a detecção precoce, rastreamento ou diagnóstico precoce. A prevenção é o único fator que diminui a incidência e a mortalidade”, disse.
Para ele, também é fundamental reforçar que o câncer não é uma patologia não-curável. “É uma patologia curável. Se você chega em diagnósticos iniciais, às vezes essa taxa de cura é de 80%, de 90%”, ressaltou.
De acordo com Gil, é fundamental olhar para os fatores de risco, como o tabagismo. “O cigarro é um produto que, racionalmente, não deveria existir porque mata um a cada dois usuários. Como é que ainda está à venda um produto como esse? A gente fala de cigarro, mas a indústria ela é extremamente capaz de produzir coisas novas muito além da nossa imaginação. Agora a gente tem os vapes, a base de tabaco aquecido. Quando você aquece alguma coisa, há a impregnação do receptor de nicotina. E quanto mais rápida a impregnação do receptor, maior é a adição, maior é a dependência pela nicotina. E eles lançam esse produto com um olhar para quem? Para os jovens”, refletiu. “O combate ao tabagismo é incessante porque a indústria não para. O que aconteceu quando o Brasil conseguiu reduzir a prevalência do tabagismo de 35% para 11%? A gente teve diminuição de mortalidade por câncer de pulmão”, concluiu ele.
Gil também destacou o sobrepeso a obesidade. “Temos que lembrar que 25% da população do Brasil é de obesos, e que 60% tem sobrepeso. E isso não se combate só com canetinha emagrecedora. É preciso ter mudanças de hábito de vida. E a obesidade está relacionada a 17 tipos de câncer”, disse. Gil destacou que um cardápio saudável é um excelente aliado na prevenção a vários tipos da doença. “Cerca de 62% dos brasileiros não consomem a quantidade recomendada de vegetais e de frutas. É a maioria da população. E nós temos cultura alimentar, lembrando que o americano não tem, a cultura dele é fast food, a nossa não”, frisou.
O especialista reforçou que não existe dose mínima segura de ingestão de álcool. “É balela a história de que uma taça de vinho protege de doença cardiovascular. A gente sabe que isso não tem nenhum sentido. O álcool tem um metabólito que é carcinógeno. Em segundo lugar, o álcool provoca o estresse oxidativo, que faz mutação de DNA. Ele aumenta o estrogênio circulante. A gente tem a clara relação de ingestão de bebida alcoólica nas mulheres e aumento de câncer de mama”, enfatizou. “Infelizmente a gente está vendo as mulheres aumentando o consumo, bebendo mais. Quase 50% tem o consumo de uma vez ou mais por mês. Os dados do SUS são assustadores, 80% dizem que bebem regularmente toda semana. Isso é muito complicado para a saúde”, disse.
Saúde é prevenção!
Gilberto Ururahy é médico há mais de 40 anos, com longa atuação em Medicina Preventiva. Em 1990, inaugurou a Med-Rio Check-up, líder brasileira em check-up médico e medicina preventiva. É detentor da Medalha da Academia Nacional de Medicina da França, é membro honorário da Academia Brasileira de Medicina de Reabilitação e coautor de livros: Como tornar-se um bom estressado (editora Salamandra), O cérebro emocional (Rocco), Emoções e saúde (Rocco) e Saúde é prevenção (Rocco, com o médico Galileu Assis). Ururahy é diretor da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Rio) e Chairman do Comitê de Saúde e diretor da Câmara de Comércio França-Brasil e Coordenador do Comitê de Saúde.
