Qualidade da alimentação e risco de câncer: como eles estão interligados?

Padrões alimentares que enfatizam frutas, grãos integrais, verduras e legumes frescos, além de proteínas magras ou de origem vegetal mostram menor associação com risco de doenças cardiovasculares, diabetes e câncer — Unsplash/Reprodução
Ao longo de décadas, um conjunto crescente de estudos mostrou ligações claras entre o que comemos e a probabilidade de desenvolver diferentes tipos de câncer. Nos últimos anos, a pesquisa deixou de focar no impacto de “superalimentos” e antioxidantes isolados e passou a concentrar-se em como os padrões alimentares gerais e de longo prazo influenciam o risco.
Isso não quer dizer que qualquer diagnóstico individual de câncer possa ser atribuído à dieta de um indivíduo; afinal, o câncer surge como resultado de uma grande gama de fatores — e ocorre também em pessoas que fazem escolhas saudáveis.
Mas, em nível populacional, há algumas tendências nos dados – inclusive no que observamos entre nossos clientes em nossas clínicas. Algumas constatações são:
1) Priorizando os alimentos:
Padrões alimentares que enfatizam frutas, grãos integrais, verduras e legumes frescos, além de proteínas magras ou de origem vegetal mostram menor associação com risco de doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. Um dos motivos pode ser que pessoas que seguem esses padrões apresentam níveis mais baixos de insulina e inflamação.
Grãos integrais, vegetais frescos, além de leguminosas e oleaginosas, contêm muita fibra alimentar, que tem sido associada a menor risco de câncer. Isso pode ocorrer porque a fibra ajuda a acelerar o trânsito alimentar pelo trato digestivo, limitando a exposição a carcinógenos, e porque alimenta microrganismos do intestino que ajudam a proteger contra a inflamação. Vegetais verdes folhosos, como alface, couve, espinafre e rúcula, e vegetais amarelo-escuros, como cenoura, inhame e abóbora, quando fazem parte de um padrão alimentar mais amplo, parecem favorecer níveis mais baixos de insulina e inflamação.
2) Escolha a carne com cuidado:
Carnes processadas, como bacon, salame e salsicha são frequentemente classificadas como carcinogênicas para humanos. Pesquisadores recomendam evitar completamente carnes processadas e limitar a carne vermelha a duas ou três porções por semana.
3) Limite consumo de ultraprocessados:
Há evidências crescentes ligando alimentos ultraprocessados ao câncer, incluindo bebidas adoçadas com açúcar. Um dos motivos pode ser que eles costumam ser ricos em açúcar e calorias, o que pode contribuir para resistência à insulina e obesidade. Mas estudos em laboratório também sugerem que substâncias químicas presentes nesses alimentos alteram o equilíbrio entre microrganismos “bons” e “ruins” do intestino e danificam a mucosa intestinal, promovendo inflamação.
Um estudo francês recente mostrou que vários conservantes comuns aumentaram o risco de todos os tipos de câncer, especialmente os de mama e de próstata. Cerca de um terço dos conservantes consumidos pelos participantes eram oriundos de alimentos ultraprocessados, mas eles também estavam presentes em bebidas alcoólicas, frutas secas ou enlatadas e vegetais embalados.
4) Beba menos álcool:
Os riscos das bebidas alcoólicas são maiores para quem bebe muito ou em episódios de consumo excessivo, mas mesmo o consumo leve aumenta o risco de alguns cânceres. A verdade é que não existe um nível seguro de consumo de álcool que evite o risco de câncer.
O álcool pode ser o fator gatilho de alguns cânceres. Estudo recente, por exemplo, mostrou que consumo pesado e consistente de álcool e maior consumo ao longo da vida (em média 14 ou mais doses por semana) aumentaram o risco de câncer colorretal.
5) Considere café, chá e laticínios:
Consumir até três xícaras de chá ou café por dia foi associado a níveis mais baixos de resistência à insulina e inflamação. Café e chá são ricos em substâncias químicas que ajudam a proteger as células contra danos. Eles podem ser bebidos quentes ou frios, feitos em casa ou engarrafados, desde que não haja adição de açúcar.
Como parte de uma dieta saudável mais ampla, laticínios integrais — recentemente incluídos em novas diretrizes alimentares federais — também foram associados a menor inflamação e resistência à insulina em alguns estudos, como iogurte natural, kefir e queijo, porque podem apoiar a saúde intestinal e foram associados à redução da inflamação em vários estudos.
6) Entenda os riscos da obesidade:
A relação mais clara entre dieta e câncer ocorre pela obesidade. Um grande conjunto de evidências a associa a mais de uma dúzia de cânceres, incluindo mama, colorretal, próstata, endométrio, gástrico, rim, fígado e pâncreas. A obesidade, é claro, não é apenas resultado da alimentação, mas também da atividade física, genética, dentre outros fatores. O tecido adiposo aumenta o estrogênio, que é um fator de estímulo para alguns tipos de câncer de mama e de endométrio. A gordura que se acumula no abdômen, chamada gordura visceral, promove inflamação e resistência à insulina.
7) A importância dos exercícios:
A prática de pelo menos 30 minutos de atividade intensa a moderada na maior parte dos dias da semana pode aumentar a sensibilidade à insulina e reduzir a inflamação, além de ajudar na perda de peso. Manter um peso corporal saudável e praticar exercícios regulares para promover uma boa saúde metabólica são essenciais, não apenas para reduzir o risco de câncer, mas também de diabetes, riscos cardiovasculares e demência.
O avanço do câncer no Brasil é um alerta à necessidade de ações contínuas e integradas que priorizem não apenas o tratamento, mas, sobretudo, a prevenção e o diagnóstico precoce — estratégias comprovadamente eficazes para salvar vidas e reduzir o impacto dessa doença na sociedade brasileira.
Saúde é prevenção!
Gilberto Ururahy é médico há mais de 40 anos, com longa atuação em Medicina Preventiva. Em 1990, inaugurou a Med-Rio Check-up, líder brasileira em check-up médico e medicina preventiva. É detentor da Medalha da Academia Nacional de Medicina da França, é membro honorário da Academia Brasileira de Medicina de Reabilitação e coautor de livros: Como tornar-se um bom estressado (editora Salamandra), O cérebro emocional (Rocco), Emoções e saúde (Rocco) e Saúde é prevenção (Rocco, com o médico Galileu Assis). Ururahy é diretor da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Rio) e Chairman do Comitê de Saúde e diretor da Câmara de Comércio França-Brasil e Coordenador do Comitê de Saúde.
